Chove no Rio como se fora inverno -
um frio eterno dentro de mim...
quarta-feira, janeiro 30, 2008
quarta-feira, janeiro 02, 2008
Será?! *
"o que é meu tá guardado.
sei que qualquer hora virá
por enquanto
espero como espera
o artilheiro a bola
alçada na área
o nariz o aroma
dos jasmins em dezembro
o poeta a palavra
para matar o poema.
sem problema
o que é meu tá guardado.
aguardo."
Chacal
* Este poema foi publicado no blog do Chacal com o título "Até Já".
sei que qualquer hora virá
por enquanto
espero como espera
o artilheiro a bola
alçada na área
o nariz o aroma
dos jasmins em dezembro
o poeta a palavra
para matar o poema.
sem problema
o que é meu tá guardado.
aguardo."
Chacal
* Este poema foi publicado no blog do Chacal com o título "Até Já".
sábado, dezembro 29, 2007
Balanço (Multimídia) de Final de Ano
Como sempre... os melhores do ano... :)
Livros:
- Olhai os Lírios do Campo (Érico Veríssimo)
- Incidente em Antares (Érico Veríssimo)
- O Ano da Morte de Ricardo Reis (José Saramago)
- História do Cerco de Lisboa (José Saramago)
Filmes:
- Little Miss Sunshine
- Scoop
- O Cheiro do Ralo
- Meu Melhor Amigo
- O Labirinto do Fauno
- Ponte para Terabítia
- Não por Acaso
- Tropa de Elite
- O Passado
- Viagem a Darjeeling
- A Vida dos Outros
Shows:
- Los Hermanos
- Nação Zumbi
Música (CD's que eu mais ouvi):
- I Am a Bird Now (Antony and the Jonhsons)
- Fome de Tudo (Nação Zumbi)
Livros:
- Olhai os Lírios do Campo (Érico Veríssimo)
- Incidente em Antares (Érico Veríssimo)
- O Ano da Morte de Ricardo Reis (José Saramago)
- História do Cerco de Lisboa (José Saramago)
Filmes:
- Little Miss Sunshine
- Scoop
- O Cheiro do Ralo
- Meu Melhor Amigo
- O Labirinto do Fauno
- Ponte para Terabítia
- Não por Acaso
- Tropa de Elite
- O Passado
- Viagem a Darjeeling
- A Vida dos Outros
Shows:
- Los Hermanos
- Nação Zumbi
Música (CD's que eu mais ouvi):
- I Am a Bird Now (Antony and the Jonhsons)
- Fome de Tudo (Nação Zumbi)
terça-feira, dezembro 18, 2007
Sapatos Vermelhos
III
Ela teria beijado o primeiro que tentasse. Naquela noite, perdida na multidão antes que começasse o show. Trazia um copo de plástico na mão, o vinho já esquentando naquela noite tão fria. Tentou arrastar alguém consigo, não conseguiu. Pediu a um amigo que fosse com ela, ele não foi. Falou com outras pessoas... Ninguém. Seria possível que ninguém do seu convívio gostasse da banda mais pop de que ela gostava? Pois então... Sozinha na cidade, resolveu ir mesmo assim. E foi. Não estava acostumada a beber de modo que o vinho a pegou logo no primeiro gole. E foi aí que resolveu não resistir... Mas ninguém veio falar com ela... Com o copo na mão, um pouco atônita tentou vasculhar em si mesma o que a fazia tão pouco atraente... Olhou para os sapatos vermelhos... Certamente não eram eles... Pelo menos emprestavam um certo quê de interessante... Talvez a calça jeans já gasta, de um modelo ultrapassado. Certamente, que calça era aquela?! Porque ainda guardava aquele trapo? O jeans já claro pelos longos anos de uso, um pouco apertado nos quadris e na bunda... porque tinha engordado alguns poucos quilos... E a camiseta branca? Completamente lisa... Nada por dizer, nenhum estilo para afirmar... Pensou nos colegas do trabalho reclamando de suas mulheres frescas, consumistas, hiper-maquiadas... Não estava maquiada... não era fresca e sequer usava as roupas da moda... E portanto, não havia ninguém que olhasse para ela. Soltou uma gargalhada enquanto elaborava o pensamento tortuoso. Derramou um pouco de vinho na areia... A tinta colorindo o chão. Achou aquilo bonito, pôs os pés calçados de vermelho ao lado - alguma coisa combinava pelo menos. Nenhum brinco, pulseira, anel, relógio, tatuagem de estrelinha no ombro, piercing nas sobrancelhas... Nada. O show de abertura começou e ela não percebeu. Olhou pro lado porque notava um olhar forte em sua direção mas o menino bonito de blusa azul olhava através dela. Neta de vidraceiro, pensou, continuo transparente...
Quando virou pra frente viu um outro rapaz conversando com uma menina... Linda... toda arrumada como ela jamais saberia imitar, nem que tivesse todos aqueles acessórios. Deixou uma lágrima pular dos olhos enquanto tentava sorrir. Jogou o resto do vinho fora na areia da árvore já manchada. Caia uma chuva fina e os primeiros acordes da banda principal já podiam ser ouvidos. Se aproximou do público. Um homem de meia idade acompanhado de uma amiga convida: ei, você não vai assitir ao show sozinha, vai? Fica aqui com a gente. E ela ficou.
Ela teria beijado o primeiro que tentasse. Naquela noite, perdida na multidão antes que começasse o show. Trazia um copo de plástico na mão, o vinho já esquentando naquela noite tão fria. Tentou arrastar alguém consigo, não conseguiu. Pediu a um amigo que fosse com ela, ele não foi. Falou com outras pessoas... Ninguém. Seria possível que ninguém do seu convívio gostasse da banda mais pop de que ela gostava? Pois então... Sozinha na cidade, resolveu ir mesmo assim. E foi. Não estava acostumada a beber de modo que o vinho a pegou logo no primeiro gole. E foi aí que resolveu não resistir... Mas ninguém veio falar com ela... Com o copo na mão, um pouco atônita tentou vasculhar em si mesma o que a fazia tão pouco atraente... Olhou para os sapatos vermelhos... Certamente não eram eles... Pelo menos emprestavam um certo quê de interessante... Talvez a calça jeans já gasta, de um modelo ultrapassado. Certamente, que calça era aquela?! Porque ainda guardava aquele trapo? O jeans já claro pelos longos anos de uso, um pouco apertado nos quadris e na bunda... porque tinha engordado alguns poucos quilos... E a camiseta branca? Completamente lisa... Nada por dizer, nenhum estilo para afirmar... Pensou nos colegas do trabalho reclamando de suas mulheres frescas, consumistas, hiper-maquiadas... Não estava maquiada... não era fresca e sequer usava as roupas da moda... E portanto, não havia ninguém que olhasse para ela. Soltou uma gargalhada enquanto elaborava o pensamento tortuoso. Derramou um pouco de vinho na areia... A tinta colorindo o chão. Achou aquilo bonito, pôs os pés calçados de vermelho ao lado - alguma coisa combinava pelo menos. Nenhum brinco, pulseira, anel, relógio, tatuagem de estrelinha no ombro, piercing nas sobrancelhas... Nada. O show de abertura começou e ela não percebeu. Olhou pro lado porque notava um olhar forte em sua direção mas o menino bonito de blusa azul olhava através dela. Neta de vidraceiro, pensou, continuo transparente...
Quando virou pra frente viu um outro rapaz conversando com uma menina... Linda... toda arrumada como ela jamais saberia imitar, nem que tivesse todos aqueles acessórios. Deixou uma lágrima pular dos olhos enquanto tentava sorrir. Jogou o resto do vinho fora na areia da árvore já manchada. Caia uma chuva fina e os primeiros acordes da banda principal já podiam ser ouvidos. Se aproximou do público. Um homem de meia idade acompanhado de uma amiga convida: ei, você não vai assitir ao show sozinha, vai? Fica aqui com a gente. E ela ficou.
terça-feira, novembro 27, 2007
Página em Branco
Eu revirei tuas páginas
até encontrar as palavras
que falavam de mim.
Desencapei teu livro
em busca de uma dedicatória
qualquer
em vão:
só havia silêncios.
Reli todas as notas
do autor
e do revisor.
Não havia respostas. Não havia entrelinhas.
Procurei nos índices e nos anexos.
Nada.
No livro desbotado e amarelecido de tua vida
nenhuma palavra sobre mim.
até encontrar as palavras
que falavam de mim.
Desencapei teu livro
em busca de uma dedicatória
qualquer
em vão:
só havia silêncios.
Reli todas as notas
do autor
e do revisor.
Não havia respostas. Não havia entrelinhas.
Procurei nos índices e nos anexos.
Nada.
No livro desbotado e amarelecido de tua vida
nenhuma palavra sobre mim.
domingo, novembro 18, 2007
Sapatos Vermelhos
II
Dou uma topada com o pé esquerdo na perna da cama. A lágrima pula teimosa do olho.
Atrasada, entro no banho e não consigo regular a temperatura: ferve de raiva ou gela de solidão a água. Me enxugo já sem paciência. Tem dias que nem ficar triste cai muito bem.
Procuro a escova pela casa e não acho, saio com os cabelos desgrenhados pelo corredor.
Pego uma chuva pelo caminho que estraga a pequena alegria da camurça vermelha de meus sapatos novos. Não há de ser nada - tento me consolar mentalmente.
Pego o ônibus cheio e cansado... Vou sacolejando por mais de uma hora e meia num trânsito sem precedentes para o horário. Depois de dois pisões no pé e um guarda-chuva molhado que destruiu o livro que eu trazia nas mãos, recebo uma cotovelada na cabeça, logo antes de saltar. Os sapatos vermelhos pisam a areia da calçada. Olho a praia em frente, o prédio... Quase não hesito. Atravesso a rua por entre os carros engarrafados, corro em direção à água, jogo o livro na areia e me sento observando as ondas...
Passo a manhã sob a chuva fina e o ar úmido que vem do mar. As ondas entoando como um mantra.
Olho mais uma vez para os sapatos destruídos antes de atirá-los ao mar...
Não há de ser nada.
Dou uma topada com o pé esquerdo na perna da cama. A lágrima pula teimosa do olho.
Atrasada, entro no banho e não consigo regular a temperatura: ferve de raiva ou gela de solidão a água. Me enxugo já sem paciência. Tem dias que nem ficar triste cai muito bem.
Procuro a escova pela casa e não acho, saio com os cabelos desgrenhados pelo corredor.
Pego uma chuva pelo caminho que estraga a pequena alegria da camurça vermelha de meus sapatos novos. Não há de ser nada - tento me consolar mentalmente.
Pego o ônibus cheio e cansado... Vou sacolejando por mais de uma hora e meia num trânsito sem precedentes para o horário. Depois de dois pisões no pé e um guarda-chuva molhado que destruiu o livro que eu trazia nas mãos, recebo uma cotovelada na cabeça, logo antes de saltar. Os sapatos vermelhos pisam a areia da calçada. Olho a praia em frente, o prédio... Quase não hesito. Atravesso a rua por entre os carros engarrafados, corro em direção à água, jogo o livro na areia e me sento observando as ondas...
Passo a manhã sob a chuva fina e o ar úmido que vem do mar. As ondas entoando como um mantra.
Olho mais uma vez para os sapatos destruídos antes de atirá-los ao mar...
Não há de ser nada.
terça-feira, novembro 13, 2007
Sapatos Vermelhos
I
Ele abriu lentamente a porta e entrou no quarto. Trazia um ramalhete de flores do campo que colocou num copo de plástico ao lado da cama levemente erguida. Olhou triste para o soro que pingava como um conta gotas. Ela abriu os olhos. Não dormia, afinal. Tentou sorrir. Ele retribuiu o que pensou ser um sorriso. Quero ver a praia, ela disse. Vinha pedindo há dias. O coração dele se machucava a cada vez que ela pedia. E se ela não vivesse muito mais? Valeria a pena, no final das contas, negar-lhe? Ela adivinhava. Quero ver o mar, Francisco. Me leva... Agora. Ele tinha lágrimas nos olhos e a voz trêmula quando disse: mas você pode se sentir mal... Pode não fazer bem pra você. Não seria melhor esperarmos que você se sinta melhor? Tenho certeza que... Francisco, eu não vou melhorar. Dessa vez ele não teve forças pra dizer que aquilo era bobagem. Fechou os olhos cansado e deixou as lágrimas correrem livres. Ela pediu de novo: agora. Ele abriu o armário, tirou umas roupas e o par de sapatos vermelhos que ela tinha usado quando chegou ao hospital 20 quilos atrás. Chamou uma enfermeira e foi até a recepção. Pediu para assinar o termo de responsabilidade. A mulher atrás do balcão olhou atônita para ele. Depois sorriu compreendendo. Disse que preparia o termo o mais rápido possível. Então ele voltou ao quarto, ajudou-a a se trocar, a calçar os sapatos vermelhos. Tudo estava largo. As roupas eram irreparavelmente inapropriadas. Mas parecia que ela tinha recuperado algo do brilho dos seus olhos. Agora tão opacos. Ele desceu com ela nos braços, assinou o termo no balcão enquanto as pessoas que passavam observavam assustadas. Então saíram. Duas quadras e já podiam ver o mar. Ele a pousou na areia por um instante enquanto tirava o sapato social. Desabotoou a camisa amassada, enrolou as mangas e a retomou nos braços. Mais próximos da água, voltaram a se sentar. Ela encostada no peito dele. Observando. Sim, agora era um sorriso... E haveria lágrimas de emoção se não se sentisse tão cansada. Sorriu. Sorriu como se ainda fosse aquela menina forte e saudável, dançando pela sala, sapateando no chão os seus sapatos novos de um vermelho vibrante. Ela o olhou por um tempo, agradecida. Por instantes, ele sorriu também despreocupado. Ficaram assim abraçados por muito tempo olhando o mar.
No meio da espuma das ondas quebrando, uma gaivota atrevida pescava. Você viu? Mas ela não respondeu...
Um vendedor ambulante observa um homem na praia chorando abraçado a uma mulher que parece morta.
Ele abriu lentamente a porta e entrou no quarto. Trazia um ramalhete de flores do campo que colocou num copo de plástico ao lado da cama levemente erguida. Olhou triste para o soro que pingava como um conta gotas. Ela abriu os olhos. Não dormia, afinal. Tentou sorrir. Ele retribuiu o que pensou ser um sorriso. Quero ver a praia, ela disse. Vinha pedindo há dias. O coração dele se machucava a cada vez que ela pedia. E se ela não vivesse muito mais? Valeria a pena, no final das contas, negar-lhe? Ela adivinhava. Quero ver o mar, Francisco. Me leva... Agora. Ele tinha lágrimas nos olhos e a voz trêmula quando disse: mas você pode se sentir mal... Pode não fazer bem pra você. Não seria melhor esperarmos que você se sinta melhor? Tenho certeza que... Francisco, eu não vou melhorar. Dessa vez ele não teve forças pra dizer que aquilo era bobagem. Fechou os olhos cansado e deixou as lágrimas correrem livres. Ela pediu de novo: agora. Ele abriu o armário, tirou umas roupas e o par de sapatos vermelhos que ela tinha usado quando chegou ao hospital 20 quilos atrás. Chamou uma enfermeira e foi até a recepção. Pediu para assinar o termo de responsabilidade. A mulher atrás do balcão olhou atônita para ele. Depois sorriu compreendendo. Disse que preparia o termo o mais rápido possível. Então ele voltou ao quarto, ajudou-a a se trocar, a calçar os sapatos vermelhos. Tudo estava largo. As roupas eram irreparavelmente inapropriadas. Mas parecia que ela tinha recuperado algo do brilho dos seus olhos. Agora tão opacos. Ele desceu com ela nos braços, assinou o termo no balcão enquanto as pessoas que passavam observavam assustadas. Então saíram. Duas quadras e já podiam ver o mar. Ele a pousou na areia por um instante enquanto tirava o sapato social. Desabotoou a camisa amassada, enrolou as mangas e a retomou nos braços. Mais próximos da água, voltaram a se sentar. Ela encostada no peito dele. Observando. Sim, agora era um sorriso... E haveria lágrimas de emoção se não se sentisse tão cansada. Sorriu. Sorriu como se ainda fosse aquela menina forte e saudável, dançando pela sala, sapateando no chão os seus sapatos novos de um vermelho vibrante. Ela o olhou por um tempo, agradecida. Por instantes, ele sorriu também despreocupado. Ficaram assim abraçados por muito tempo olhando o mar.
No meio da espuma das ondas quebrando, uma gaivota atrevida pescava. Você viu? Mas ela não respondeu...
Um vendedor ambulante observa um homem na praia chorando abraçado a uma mulher que parece morta.
segunda-feira, novembro 05, 2007
Personagem
A cada golpe eu finjo
que o coração magoado suporta
que os pés feridos de caminhar
aguentam
que o que tenho nos olhos
é poeira
e não lágrima
que a amargura da voz é cansaço.
E não
solidão.
que o coração magoado suporta
que os pés feridos de caminhar
aguentam
que o que tenho nos olhos
é poeira
e não lágrima
que a amargura da voz é cansaço.
E não
solidão.
sábado, novembro 03, 2007
Não
Eu exigi de você
as palavras que eu queria ouvir.
Levei muito tempo pra entender
que o seu silêncio negava
aquilo que eu pedia.
as palavras que eu queria ouvir.
Levei muito tempo pra entender
que o seu silêncio negava
aquilo que eu pedia.
quarta-feira, outubro 24, 2007
domingo, outubro 21, 2007
quarta-feira, outubro 17, 2007
Balanço
Restaram
estas flores desbotadas
o plástico duro das retinas
esses papéis de bala
amassados pelo chão.
Restou um cheiro
misturado
de perfume
excitação
cigarro
bebida.
(E estes paetês espalhados aí pelo chão)
estas flores desbotadas
o plástico duro das retinas
esses papéis de bala
amassados pelo chão.
Restou um cheiro
misturado
de perfume
excitação
cigarro
bebida.
(E estes paetês espalhados aí pelo chão)
Hino de Passagem
As coisas que passaram continuam
impávidas.
As coisas que passaram
resistem.
As coisas que passaram ainda me choram.
Choro as mesmas lágrimas.
Nada modifica.
As coisas que passaram não se importam:
só eu sofro ainda.
impávidas.
As coisas que passaram
resistem.
As coisas que passaram ainda me choram.
Choro as mesmas lágrimas.
Nada modifica.
As coisas que passaram não se importam:
só eu sofro ainda.
sexta-feira, outubro 12, 2007
A Rosa
Perdoa estas mãos vazias, amigo.
As flores que colhi para ti
não suportaram a espera.
O tempo se encarregou de murchá-las:
não a esperança.
Devagar retomo:
reencontros
abraços
lágrimas de partida que agora é chegada.
Perdoa estas mãos vazias.
(Nelas estavam as rosas)
As flores que colhi para ti
não suportaram a espera.
O tempo se encarregou de murchá-las:
não a esperança.
Devagar retomo:
reencontros
abraços
lágrimas de partida que agora é chegada.
Perdoa estas mãos vazias.
(Nelas estavam as rosas)
domingo, outubro 07, 2007
Às palavras que não foram ditas, acrescento estas...
É com silêncio que pretendes retribuir todas as minhas afirmações?...
Eu já muito disse do que passou e do que se deixou ficar.
Agora
tudo me cansa:
teu silêncio de pedra
que apesar das palavras não diz;
esses nós que deixamos sem desatar pelo caminho.
Já não sei se esqueço
se averiguo
voltando de tempos em tempos a cabeça para trás.
Os nós vão sumindo
distantes.
Distante também essa lembrança
de nós
de ti.
Como se sobrasse apenas um vago desejo
de que não tivesse sido bem assim...
Eu já muito disse do que passou e do que se deixou ficar.
Agora
tudo me cansa:
teu silêncio de pedra
que apesar das palavras não diz;
esses nós que deixamos sem desatar pelo caminho.
Já não sei se esqueço
se averiguo
voltando de tempos em tempos a cabeça para trás.
Os nós vão sumindo
distantes.
Distante também essa lembrança
de nós
de ti.
Como se sobrasse apenas um vago desejo
de que não tivesse sido bem assim...
quarta-feira, setembro 19, 2007
Viagem
II
Sento ao lado de um homem que lê no ônibus. Vejo as árvores correndo lá fora e tento disfarçar. Corre um vento levemente gelado por estes dias, encontrando meu rosto molhado de lágrimas. Tento em vão enxugá-las passando as mãos no rosto e secando-as no vestido já úmido. Tento rir do ridículo da minha situação: o vestido de flores miudinhas que não gosto mas uso porque ganhei, eu só no meio daquela multidão de gente voltando pra casa, sem conseguir conter o choro. O homem ao meu lado lê concentrado. E me pego torcendo que alguém me veja, mesmo ele e faça algo por mim. Tenho a sensação de que ao chegar no ponto onde devo descer não terei forças. Ele parece voltar o rosto em minha direção... Mas não... terá sido apenas uma impressão. Volta à leitura. Certamente, se eu soluçar ele há de confundir o meu choro com alguma personagem do livro e há de estar surdo para o meu desespero. Sinto que não terei forças... Tento me acalmar e, por alguns breves minutos, consigo conter o choro. Mas, ao virar de uma esquina, sem motivo nenhum, ao respirar mais profundamente como para me refazer dessa tristeza sufocante eis que o suspiro relembra a dor e já não posso conter as lágrimas de novo. Amanhã terei os olhos inchados, o rosto abatido. Tenho vergonha, já não sei como disfarçar... De súbito percebo que quase passei do ponto, levanto bruscamente e agradeço que tenha sido assim - não sabia que teria forças pra me levantar. Desço os degraus com as pernas um pouco fracas, vacilando, e ando a passos largos para casa. Abro a porta, atiro a roupa pelo corredor e me meto num banho bem quente. Exausta, me deixo ajoelhar e sento sobre os calcanhares no chão gelado do boxe... Tenho um fim de semana inteiro pela frente, sozinha neste apartamento e sei que o telefone não há de tocar, seguindo religiosamente sua mudez das últimas semanas. Afogo entre a água do chuveiro e o pranto: apenas os azulejos me escutam.
Sento ao lado de um homem que lê no ônibus. Vejo as árvores correndo lá fora e tento disfarçar. Corre um vento levemente gelado por estes dias, encontrando meu rosto molhado de lágrimas. Tento em vão enxugá-las passando as mãos no rosto e secando-as no vestido já úmido. Tento rir do ridículo da minha situação: o vestido de flores miudinhas que não gosto mas uso porque ganhei, eu só no meio daquela multidão de gente voltando pra casa, sem conseguir conter o choro. O homem ao meu lado lê concentrado. E me pego torcendo que alguém me veja, mesmo ele e faça algo por mim. Tenho a sensação de que ao chegar no ponto onde devo descer não terei forças. Ele parece voltar o rosto em minha direção... Mas não... terá sido apenas uma impressão. Volta à leitura. Certamente, se eu soluçar ele há de confundir o meu choro com alguma personagem do livro e há de estar surdo para o meu desespero. Sinto que não terei forças... Tento me acalmar e, por alguns breves minutos, consigo conter o choro. Mas, ao virar de uma esquina, sem motivo nenhum, ao respirar mais profundamente como para me refazer dessa tristeza sufocante eis que o suspiro relembra a dor e já não posso conter as lágrimas de novo. Amanhã terei os olhos inchados, o rosto abatido. Tenho vergonha, já não sei como disfarçar... De súbito percebo que quase passei do ponto, levanto bruscamente e agradeço que tenha sido assim - não sabia que teria forças pra me levantar. Desço os degraus com as pernas um pouco fracas, vacilando, e ando a passos largos para casa. Abro a porta, atiro a roupa pelo corredor e me meto num banho bem quente. Exausta, me deixo ajoelhar e sento sobre os calcanhares no chão gelado do boxe... Tenho um fim de semana inteiro pela frente, sozinha neste apartamento e sei que o telefone não há de tocar, seguindo religiosamente sua mudez das últimas semanas. Afogo entre a água do chuveiro e o pranto: apenas os azulejos me escutam.
terça-feira, setembro 18, 2007
Respostas
Estou só.
Aprendi a ter como companhia
apenas a luz do dia e a escuridão da noite.
Chamei. Pedi.
Ninguém veio.
Implorei. Desesperei.
E Deus não existiu.
Agora
que a seca estia
e posso, mesmo daqui,
ver algumas flores raras no jardim
é que vão chegando a mim algumas vozes.
Murmúrios.
Mantenho as portas fechadas.
Não responderei.
Apenas a quem me pedir auxílio
hei de socorrer:
por compaixão de mim mesmo.
Aprendi a ter como companhia
apenas a luz do dia e a escuridão da noite.
Chamei. Pedi.
Ninguém veio.
Implorei. Desesperei.
E Deus não existiu.
Agora
que a seca estia
e posso, mesmo daqui,
ver algumas flores raras no jardim
é que vão chegando a mim algumas vozes.
Murmúrios.
Mantenho as portas fechadas.
Não responderei.
Apenas a quem me pedir auxílio
hei de socorrer:
por compaixão de mim mesmo.
sexta-feira, setembro 14, 2007
Reagente
Anda silenciosamente.
Sem rumo.
Responde apenas quando alguém chama.
Não chama.
Não pede.
Não implora.
Um dia
quando se cansar de só re-agir
pode ser que ninguém responda.
Sem rumo.
Responde apenas quando alguém chama.
Não chama.
Não pede.
Não implora.
Um dia
quando se cansar de só re-agir
pode ser que ninguém responda.
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