sexta-feira, dezembro 30, 2005

Belo Horizonte é logo ali...

2005 foi um ano de aprender que nem tudo são planos. De aprender que, às vezes, temos que ser loucos e fazer as coisas em cima da hora, sem o menor planejamento. E que essa loucura pode dar certo demais.
Foi também um ano para concretizar novas amizades. Conheci pessoas incríveis e estreitei os laços com outras.
Foi um ano de mudar também. Um ano de coragem para largar uma mesmice estável e correr atrás dos velhos sonhos. Sim, eu ainda sonho. E sim: alguns sonhos ainda são os mesmos.
E o que esperar para 2006? Eu ainda não sei. Espero que ele seja tão surpreendente quanto 2005, porque eu quero os meus dias mais assim: apenas um azul colorindo a vida e uma alegria simples de viver.

***

Hoje à noite pego um ônibus para amanhacer em BH, vendo o sol nascer na estrada. Tudo isso para passar a festa de fim de ano lá com um amiguinho querido e o maridão. E voltar voando no domingo, pro Rio para ver como foi que o ano chegou por aqui.
Belzonte, aí vamos nós!

sábado, dezembro 24, 2005

...

email aberto...
café esfriando sobre a mesa...
alguns minutos já passaram...
quatro linhas na tela...
o que dizer?... o que dizer?!...
quando se tem tanto pra falar...
e tão fundo que não se acha o caminho da boca...
ô coisas que não conseguimos dizer com palavras...
o café frio já bebi...
e ainda não disse nada...
bem, se é assim, pode ser que não seja pra eu dizer...
e se não é pra eu dizer, talvez seja pra você simplesmente ver...
não sei se já te falei, sobre as folhas de papel brancas...
sobre elas conterem, de uma vez só, tudo que pode ser escrito...
a gente que vai lá e descobre algumas dessas coisas...
neste caso, em que não posso dizer, acho que o melhor é te mostrar...
e deixar você ler o que é seu na minha alma....



quarta-feira, dezembro 21, 2005

Balanço (Multimídia) de Final de Ano

Resolvi listar nesse final de ano, não exatamente tudo que me aconteceu - ou as coisas mais relevantes - e sim, os livros que li, os filmes que assisti, as músicas que ouvi... Enfim, estas e outras coisas que através das mídias me marcaram...

Livros:
O Evangelho Segundo Jesus Cristo (José Saramago)
Triângulo das Águas (Caio Fernando Abreu)
Corpo Presente (João Paulo Cuenca)
A Casa dos Espíritos (Isabel Allende)
A Filha da Fortuna (Isabel Allende)
Retrato em Sépia (Isabel Allende)
As Intermitências da Morte (José Saramago)

Filmes:
Mar Adentro
Minha Vida sem Mim
A Viagem de Chihiro
Inimigo Meu
O Castelo Animado
O Coronel e o Lobisomem
Dia de Cão
Adeus Lenin

Músicas:
Ponta de Areia (Milton Nascimento)
A Flor (Los Hermanos)
Santa Chuva (Los Hermanos)

quarta-feira, dezembro 14, 2005

Velhinha

Ela acorda bem cedo. Às cinco. Sozinha em sua cama. E, apesar de anos assim, nunca conseguiu aposentar o despertador. O de hoje em dia é digital. Os números vermelhos quadrados sempre tiveram um efeito sobre ela. Mas, depois de tanto tempo, isso nao vem mais ao caso. Ela senta na cama. Calça as suas sandálias. E, sai andando, arrastando o "rabo" do chinelo. Caminha no escuro. A lâmpada da cozinha, a única que acende.

A primeira coisa. Fazer o café. O café de um novo dia, depois de algumas vidas, confunde-se com o próprio dia. E, pode-se até dizer que logo bem antes do momento de acordar, ela está "acordadinha", meio dormindo, ansiosa para fazer um novo dia começar. Ainda aquece a água. Resolveu, levou tempo para isto, usar filtro de papel e um escorredor de plástico. Mas, nunca quis usar a cafeteira elétrica. Claro! Que alegria tem, ao invés de fazer, olhar um novo dia ser feito? Assim, passivamente, como tudo que é automático. Tanto para ela quanto para o dia. É transformar
sua aurora em tautologia. Enquanto a água esquenta, ela observa. Gosta de sentir o calor do vapor no rosto. Até em dias quentes. É bom.

Depois. Pega a vasília de pó de café, vermelha e quadrilátera, cantos arredondados, como os números do despertador. A colher já fica lá dentro. É só abrir. Colocar três colherinhas de sopa no filtro de papel, que ela só arruma depois que abre o pote e sente o cheirinho do pó. Aí sim, hora de pegar a leiteira pela asa recoberta de plástico duro, já meio derretido. E, lentamente, derrama um fluxo bem quentinho no escorredor, enchendo-o. As gotinhas pretinhas vão caindo na jarra de vidro. Não usa a cafeteira, mas a jarra ela achou bem bonitinha. As gotinhas viram um filete, contínuo, fazendo um sonzinho, baixo, mas grossinho. A fumaça do café espalha-se pela cozinha. Sozinha. Ali. Ela respira. Devagar. Nesta idade, tudo fica devagar. Os olhos, pra baixo. Olhos e mãos sobre o tampo do móvel. Olhos de quem já cumpriu a sua tarefa, sua parte no raiar do dia.

Agora. Esperar a hora de dormir. Quem sabe até lá, ficar um pouquinho no portão. Vendo as pessoas passarem. Os carros e os ônibus passarem. Alguns dirão bom dia. E ela vai sorrir. Agradecida pelo reconhecimento...

terça-feira, dezembro 13, 2005

Uma Tarde de Sábado

Cecília espeta seus olhos em mim enquanto fala entusiasmada. Algo nela me faz lembrar de mim há tempos atrás. Não sua beleza de quase menina mas a certeza e a emoção de suas palavras. Marcelo se cala por trás da fumaça adocicada do narguile. Sinto muito sono e peço que me faça um café. Ele me traz uma caneca bem quente e sorvemos o café entre risos felizes. Está sol lá fora mas não faz calor. Recebo seu café como quem aceita companhia durante uma caminhada. Porque tenho me sentido só esses dias lutando contra as jornadas solitárias pelas areias de uma praia branca em meus sonhos.

quarta-feira, dezembro 07, 2005

Bene Venuta

Vejo um avião no reflexo das janelas do edifício
e sei que tu vens chegando
depois do que foi uma longa ausência para mim.
E trago-te nas mãos
meu coração.
Deixa tuas malas no aeroporto
e retoma tudo aquilo que deixaste:
aquela carta por fazer,
alguns móveis empoeirados
e todos estes que aqui estão à tua espera.

Saudade

Saudade é aquilo que a gente tem quando não tem. Alguém ou algo...
Ou algum tempo.
Saudade é aquilo que se teve e já não se tem, ou um desejo de ter o que nunca foi.
A saudade é ausência.
Mas também é presença daquilo que se quer.
Saudade é aquela folha seca que cai e a gente observa.
É aquela criança que corre e a gente esquece que já não somos.
É tudo aquilo de feliz - e até de triste - que já se perdeu.
É uma senhora severa à espera. De testa franzida e olhar penetrante.
É a sombra que nos mira sem se revelar.
A saudade é a imagem, mais real do que fora a própria realidade - num tempo que já se perdeu.
É a lembrança, nítida e forte, de tudo aquilo que foi, ou se imaginou que foi.
É o lugar que era grande e já não é mais, como se vendo-o de novo, reduzido ao seu quinhão de realidade, já quase não fosse.
Aquela lágrima que nem soube.
E nem se sabe.
Porquê chorou...

domingo, dezembro 04, 2005

Arquétipo

Pela manhã, ele acorda por volta das sete. Abre os olhos, mas não se levanta. Sempre fica mais cinco minutos, sabendo que a hora de levantar já chegou. É o melhor momento do seu dia. Uma mescla de prazer. Não é prazer o que sente, podemos dizer apenas que é uma mescla disto com outras coisas. Conforto advindo da proteção por ainda estar debaixo do lençol, ou cobertor, e imaginar que lá fora, de casa, ainda está escuro, mas que o sol já vai sair aquecendo tudo, tornando úmido o que antes estava úmido e frio. Sim, ele adora pensar assim. Mesmo que seja apenas uma pitada escorregadia, como todos os seus pensamentos, adora pensar que o que está úmido e frio pode ficar quente, pelando, normal até, mas frio não, porque “frio está lá fora, agora, não aqui dentro, debaixo do meu cobertor... huuumm”. Desconforto também, em saber que terá que levantar em 5 minutos para ir trabalhar em seu “empreguinho de merda, mas que às vezes eu gosto de fazer”. E, principalmente, é, deve ser principalmente, se alguém pode dizer ao certo, garanto que não é ele, um gostinho salgado de transgressão, pois os cinco minutos sempre se transformam em dez minutos e estes dez tardam apenas cinco a virar quinze. Sempre assim, sempre é assim pela manhã.

sexta-feira, dezembro 02, 2005

Naquilo em que não estás - te encontrarei?

Eu te procuro exatamente naquilo em que não estás.
E te encontro num gesto breve, numa pequena palavra.
Porque tens contigo este brilho no olhar
e esse jeito de olhar
que me vê
de onde eu estiver.
E o que estiver em mim.

quinta-feira, dezembro 01, 2005

Para um Amigo (Oculto?)

Queria saber te dizer algo
como você sabe me dizer...
Mas você, às vezes, é um enigma
um segredo tão bem guardado
que eu não posso entender...
Posso apenas aceitar...

terça-feira, novembro 29, 2005

O Sonho

Fiz um desenho na palma de tuas mãos
mas as estrelas caíram como gritos.
Me deixei ficar ali fora no quintal
os riscos atravessando o céu já escuro.
Depois, a noite calada,
alguém disse:
silêncio.
Foi então que o céu se partiu em pedacinhos.
Já não tínhamos sonhos
já não sabíamos as cores
do arco-íris.
Então corremos para a ponte.
Mas tivemos medo.
O outro lado do lago
escondido.
Não queriamos dormir
mas adormecemos.
E no dia seguinte
não havia vestígio.

Um Dia Triste

Veja
não há nenhuma esperança.
O dia amanheceu tristonho
e calado.
Ninguém notou.
Apenas eu.
Quero agora aqueles bancos coloridos
a tarde chuvosa daqueles anos
e as folhas que caiam.
Nada mais.
Mas o céu absorto
me consola:
a noite já principia.

segunda-feira, novembro 28, 2005

Vitrines

Puxou da bolsa um batom velho
de um vermelho demodê
quase espatifado.
Passou aquilo nos lábios
a vitrine de vidro
como espelho.
O objeto desejado
confundido com o reflexo
daquela realidade.
Fez sua melhor pose de madame
e entrou.

quinta-feira, novembro 10, 2005

Definição de Existir

Ali, entre aquelas quatro paredes coloridas,
aquele homem.
Deixou-se cair sentado no assoalho.
Alguma coisa pesando por dentro.
Queria alguma delicadeza
mas tudo era solidão.
(Tudo aquilo era eu:
aquele homem oprimido pela tristeza
as 4 paredes coloridas
a própria solidão.)

quarta-feira, novembro 09, 2005

Trevo

Colocou um galinho de arruda atrás da orelha e saiu.

Incoerência Cotidiana

É tarde. Entro num táxi no centro da cidade.
O motorista entra calmamente e me explica que a partida vai demorar.
Acho graça quando ele diz "um tal de GPS, a senhora conhece?", "sei" respondo. Então... "a gente tem que esperar para conectar ao GPS e assim eles" - reparem que eles é uma entidade quase mística - "continuando: assim eles sabem que quem está no carro sou eu e não o assaltante".
Eu acharia tudo isso genial, não fosse o tempo que ficamos parados em plena Rio Branco, que à noite - todos sabem - todos os gatos são pardos. E além disso, mal eu entro no táxi e o taxista me vem com essa novidade. Eu devo mesmo ter cara de uma senhora muito respeitável...

terça-feira, novembro 08, 2005

Ausente

Meus olhos acompanham os movimentos pela janela.
Penso em que horizontes os teus olhos pousam.
Que vês de tua janela?
Que será que fazes agora...
É noite
e eu me deito sem sono a amparar as paredes
com minhas preocupações.
É tarde.
Mas eu não sei por onde tens andado.
O telefone
mudo
me mira
e eu adormeço sem sonhos.

A Chuva e o Mar

A chuva fina tingia de cinza a cidade. Caminhou até poder ver as ondas que se agitavam inquietas. Olhou ao redor; a areia fina e clara, as árvores ao longe balançando lentamente. Sentiu o vento penteando seus cabelos, a maresia incrustando-se na pele.
Olhou de novo o mar. Ah! o mar...

terça-feira, outubro 18, 2005

Enfim

Maria Luisa chegou. Tem os cabelos arrepiados e muito pretos. Os olhinhos atentos e silenciosos. Tem o cheiro das descobertas. Traz nas mãos uma pequena oferta: a sabedoria de que a vida sempre se renova...

Dos Sentimentos*

Socorro

"Socorro, não estou sentindo nada.
Nem medo, nem calor, nem fogo,
Não vai dar mais pra chorar
Nem pra rir.

Socorro, alguma alma, mesmo que penada,
Me empreste suas penas.
Já não sinto amor nem dor,
Já não sinto nada.

Socorro, alguém me dê um coração,
Que esse já não bate nem apanha.
Por favor, uma emoção pequena,
Qualquer coisa.

Qualquer coisa que se sinta,
Tem tantos sentimentos, deve ter algum que sirva.
Qualquer coisa que se sinta,
Tem tantos sentimentos, deve ter algum que sirva.

Socorro, alguma rua que me dê sentido,
Em qualquer cruzamento,
Acostamento, encruzilhada,
Socorro, eu já não sinto nada."

Arnaldo Antunes e Alice Ruiz

* Para minha amiga Pe que tem descoberto que é preciso sofrer para sentir, e que é possível chorar sorrindo. ;)

terça-feira, setembro 27, 2005

O Porta Retrato

Segurou o retrato entre as mãos. Mirou a mulher que sorria sem qualquer expressão.
Por um momento pareceu que recordava, que um sentimento qualquer emergia.
Pura ilusão - devolveu o retrato cuidadosamente à mesa e prosseguiu.

O Pesadelo do Avesso

Acordou e por um breve momento sentiu-se imensamente feliz - era um sonho. Acabou, acabou, foi um sonho.
E de repente a realidade caiu sobre sua cabeça como uma bigorna: nem havia sonhado.

A Janela

A chuva riscava a janela. Sem pressa. A tarde ia estendendo sobre o céu um manto. Tudo escurecia.
O vento vinha varrendo as árvores. As folhas pairando como se se desprendessem de um calendário. Era como se o tempo estivesse dizendo: estou passando.

Deixou-se ficar ali na janela observando a tarde cair. Não acendeu as luzes. Não queria mover-se dali e perder o espetáculo mesmo sabendo que parte dele está no observador. Gostava de ver a terra umedecendo até criar as poças. Colou as mãos no vidro e aproximou o rosto até embaçar.

Portas

Levanto-me da cadeira. Os músculos de minhas pernas, em contato com o chão, permitem que seja criada a tensão necessária. Desloco moléculas de ar que, por sua vez, deslocam outras. Consequência da projeção do meu corpo através do espaço. Concreto sou eu. Apóio-me sobre isso da mesma maneira que sobre os meus pés. Uma pedra basal, na qual se sustentam todas as construções disformes que constituem a cidade caótica da minha alma. Minha casa. O lugar íntimo onde pode ser encontrado aquilo que chamo de eu mesmo.

Mas, como concreto? É exatamente a inconcretude que possibilita o movimento das sublimes moléculas de ar e o deslocamento de meu próprio aparato físico pelo espaço que o cerca. Membros interagindo com o solo. Uma molécula de ar que age sobre outra, empurrando-a. Dois objetos exercendo e sofrendo ações mútuas e simultâneas. O limite entre os dois. Aquele que torna possível a elaboração de uma articulação capaz de transformar dois em um só, maior e diferente. Esta linha localizada bem na periferia da realidade, na fronteira do mundo. Ela, que também está em nós, e o além de si que provoca e pelo qual é provocada são a pedra basal de tudo o que é e se move. Constituem o lugar onde se diluem os próprios significados de exercer e sofrer. Onde a nossa linguagem se dissolve em uma solução homogêna, sem movimento, fora do tempo e espaço. Uma pedra tão sublime e frágil quanto a concretude de nossas verdades.

Discussão paliativa. Nada disso importa pra nós mesmos e para o que nós somos.

Meu Amigo Filósofo

Uma novidade: o Paulo, meu amigo das frases e textos incríveis, filósofo não só nas horas livres como nas ocupadas, vai fazer umas participações especiais por aqui. Então é isso: aguardar pelos textos assinados como Paulo Lobo.
Tá bom, Paulo, sou eu que vou postar... é só para as pessoas saberem que o texto não é meu... :)

segunda-feira, setembro 19, 2005

Crônica do Dia

Passa !

Sem Título

"Lá vinha. Da esquina. Que baque ao vê-lo. Figura enorme, esguia. Seus olhos arregalados, a boca escancarada, ofegante. Vinha rápido. Mulato, cabelo grande, magro. Corria com os olhos arregalados, mas não era de medo. Ele estava alerta como um gato. Cada célula do seu corpo respirava desperta e ativa. Olhos esbugalhados de quem sabe tudo o que acontece em volta de si, sem se dar conta disso. E como corria! Cada passada de pernas sua era um salto. Conforme aproximava-se, seus pés descalços ficavam maiores. Conseguia quase ver o encardido das suas solas. Ele ia passar por cima de mim, a pisadas. Tudo o que pude fazer foi desequilibrar o corpo, tentando tirar o máximo de mim do seu caminho. Não consegui nem a metade. Em instantes nos trombamos. E, eu que esperava sentir a marretada de seus calcanhares, recebi as estocadas do joelho e cotovelo. O primeiro na coxa o outro no ombro. Caí com a coxa imóvel, ombro imóvel, tudo imóvel. Minha boca sangrava, não sabia bem porquê. Até que passado um tempinho, pude ver, não sei como, um polícial passar por cima de meu corpo caído. E, foi neste momento que eu percebi que ele não era mais meu. Morri. Fui alvo acidental de um tiro bem intencional. Mas agora é tarde, já foi."

Paulo Lobo

quarta-feira, setembro 14, 2005

domingo, setembro 11, 2005

O Quarto

Queria sorrir mas não podia. Estava trancada num corpo que não respondia aos estímulos. Nem mesmo aos sentimentos. Todos entravam e saiam do quarto preocupados apenas em mudar sua posição para prevenir escaras ou trocar fraldas, arrumar sondas.
Exceto o neto curioso que a beliscava até formar grandes nódoas arrocheadas ou que alguém o repreendesse. Porém, sentia-se extremamente grata por isso. Pois era o único que não desistia de acreditar que ela estava lá.

O Topo

Arfava. Parou curvando-se e apoiando as mãos espalmadas sobre os joelhos. Tudo era cortante naquela tarde. A terra árida sob seus pés... Mesmo o pôr do sol pincelando o céu em tons de vermelho.

quarta-feira, setembro 07, 2005

Quando você me levava para ver os aviões no aeroporto

Senti tuas mãos percorrerem as linhas do meu rosto num gesto triste. Era quase como se não me reconhecesses mais. O tempo desconstruiu as pessoas que fomos. Desfez aqueles que éramos quando nos conhecemos. Teu olhar profundo tenta buscar no meu algo que já não sou. Alguma certeza inerente naquela que eu fui um dia e que te fazia tão próximo. E já não és mais. E nada é mais como era.

terça-feira, agosto 30, 2005

O que toca por aqui

Ponta de Areia

"Ponta de areia, ponto final
da Bahia Minas, estrada natural
Que ligava Minas ao porto, ao mar,
caminho de ferro mandaram arrancar
Velho maquinista com seu boné
lembra o povo alegre que vinha cortejar
Maria Fumaça não canta mais,
para moças flores, janelas e quintais
Na praça vazia um grito, um ai,
casas esquecidas, viúvas nos portais"

Milton Nascimento

sábado, agosto 20, 2005

Sua Amizade me Agasalha*

Não sei dizer exatamente como nos tornamos amigos. Talvez tenha sido naquele dia de longas conversas entre um café e outro. Talvez tenha sido ao longo destes anos em que nos conhecemos... Só sei dizer do quanto me sinto feliz por tê-lo como meu amigo e dessa mágica maravilhosa que nos faz tão próximos mesmo distantes. E dessa mania inexplicável que você tem de me entender...
Teu abraço está guardado, amigo.

* Mais uma frase incrível do meu amigo Paulo. Já tá até ficando chato... :)

quarta-feira, agosto 03, 2005

Maria Luiza

Porque ainda não chegastes
mas nós te receberemos.
Porque não sabemos como será
o teu rosto
ou a cor dos teus olhos...
E porque, na verdade,
pouco importa a cor ou a forma
dos teus cabelos...

Porque tua vinda
será
bem-vinda.
Uma bela surpresa
uma gostosa promessa...

Porque te aguardamos
e te aguarda
a vida...
Com toda a sua delicadeza
e sua força.
Tulipas, margaridas e gira-sóis...
Um mundo inteiro aqui fora
te espera.

Serás, pequenina,
menina,
para sempre,
nossa princesinha...

As Luzes da Cidade

Já é noite e posso sentir o cheiro do mar.
No centro da cidade tudo é urgente
mas agora
só os faróis iluminam.
E alguma lua...
Reparo pela janela do carro em movimento
pequenas coisas.
E uma solidão de quem sai da cidade
me invade como madrugada.

terça-feira, julho 19, 2005

Viver para Contar (*)

Recordava-se dele mais bonito.
Cancelou o encontro e ficou com as lembranças.

(*) "A vida não é a que a gente viveu, e sim a que a gente recorda, e como recorda para contá-la."
Gabriel Garcia Marquez

O Bêbado

Parou de repente
trocou 3 palavras com o hidrante
depois continuou andando.

terça-feira, julho 05, 2005

Pequenas Lembranças

Deitou sobre a cama pousando o rosto no travesseiro e sentindo o cheiro dos lençóis limpos, a cama impecavelmente arrumada.
Lembrou-se então da cama de sua avó onde se deitava nas tardes mornas de domingo, o crucifixo de madeira sobre a cabeceira e aquele cheiro de sol entranhado nas roupas de cama.

O Dito pelo não Dito

Ela disse assim: deixa-me com estas tuas últimas palavras e vai.
Ele foi. Mas levou as palavras.

segunda-feira, junho 27, 2005

O Bilhete

Deixou um punhado de palavras dispersas sobre o papel.
A tinta negra penetrando as tramas...

Madrugada

Na cozinha e na sala as luzes acordadas desafiavam a madrugada alta que ia colorindo com pequenos pontos o pano negro do céu lá fora.
As crianças dormiam no quarto - pijaminhas de flanela e porta encostada para conter o ruído dos adultos que precisam acordar cedo.
O aroma do café vai aquecendo as idéias e os destinos.
O sol silencioso se insinua.
É quase dia.

terça-feira, junho 07, 2005

CEP 20.000

Se você tivesse vindo comigo
podíamos sentar ali no beijodromo
que é apenas duas cadeiras de plástico
sob a luz forte do holofote.
Mas...
que importa?

sexta-feira, maio 27, 2005

O Grão

Ele começou a declamar o poema apaixonadamente.
Ela ficou ali tentando encontrar nele o grão de honestidade sob aquelas grossas camadas de mentiras e disfarces.
Pensou que estava nos olhos porque os olhos brilhavam.

Intervalo Comercial

Para quem precisa de uma dica para o final de semana aí vai uma:


Para quem quer ler microcontos interessantes:

domingo, maio 08, 2005

sexta-feira, maio 06, 2005

A Dor e a Delícia...

Ela se mostrou com toda sua beleza e todos os seus pequenos defeitos e grandes delitos.
E ele adorou.

Figurinhas ou Das Pequenas Decepções de Meninice

Abriu rapidamente os cinco pacotes de figurinhas.
Apenas uma não era repetida.

Nós vamos invadir sua praia!

Ultimamente tenho conhecido muita gente de fora... Alguns são praticamente brasileiros que nasceram no país errado. Não sei exatamente o que o Brasil tem, mas atrai uma galera para cá, para estudar, trabalhar, gente que vem atrás de um amor brasileiro que não pode viver sem...
Além do gringo original já amigo, conheci também uma menina eslovena, um repórter inglês, uma professora peruana que tem um marido inglês (ainda não sei o que vieram fazer aqui) e um viajante (sim, o cara praticamente só viaja) alemão que inclusive esteve lá em casa comendo comida árabe. Hummm, aí você pode me perguntar se eu tenho descendência árabe mas não tenho não...

domingo, maio 01, 2005

Viagem

A aeromoça anunciou que aterrissariam poucos minutos depois que ela se deixou vencer pelo cansaço e adormeceu. Então, acordou sobressaltada e colou o rosto na janela vendo lá de cima aquela paisagem tão familiar. Sorriu ao mesmo tempo em que não conteve as lágrimas.

Será que era mesmo?!

E era tudo verdade.

E era tudo mentira.

E era tudo verdade.

E era tudo mentira.

Não! Era tudo verdade!

Ou não era?!

domingo, abril 17, 2005

Relíquia III

Às vezes, andar pela casa trazia-lhe um peso enorme. Sentia a presença daqueles fantasmas de existências desconhecidas.
Assim, passou os primeiros dias apenas no andar térreo, cuidando da limpeza daqueles cômodos empoeirados pelo tempo e pelo esquecimento.
A cortina da sala se desfez nas suas mãos e ele decidiu não retirá-la por enquanto. Lá fora os vizinhos curiosos disfarçavam olhares pela janela. Fingiu não perceber.
Preencheu seu tempo livre com alvejantes e vassouradas nos cantos do teto. Descobrindo insetos, aranhas e formigas. Tudo parecia ruir.

Sem Pé nem Cabeça

Tem momentos em que me dispo de mim e saio por aí assim: completamente nu.

segunda-feira, abril 11, 2005

Passado

Ela o encarou e ele sorriu acentuando as rugas em seu rosto. De repente, ela se deu conta: dez anos se passaram desde a última vez em que se viram. O tempo fez suas marcas no rosto daquele homem. Levou um susto e se envergonhou - teria ele percebido alguma reação? alguma expressão rápida demais para que pudesse refrear? Se ele percebeu não deixou transparecer.
Conversaram um pouco. Nada sobre os anos em que ainda se viam. Nada sobre os anos em que ela era uma menina e ele o pai a ouvir suas longas histórias. Não falaram disso. Ambos tinham medo. Falaram apenas sobre o que havia acontecido naqueles últimos anos. O casamento dela, o aprendizado da marcenaria que agora tinha a esperança de que fosse seu novo trabalho fora daquelas grades. Enquanto conversavam ela se surpreendeu: nada sentia por aquele homem. Na verdade, ele não era mais o mesmo homem. Não era o pai que ela havia tido na infância. Aquele pai se perdera. No tempo, no alcoolismo, na violência. Aquele homem a sua frente era apenas um vestígio. Deteriorava. E uma dor aguda, bem fina, invadiu seu coração. Sua tristeza era apenas por ver alguém tão sugado pela vida. Uma mágoa que já não tinha motivos.
Despediram-se apenas com um beijo rápido. O momento não permitia longos abraços como cada um deles talvez pudesse ter esperado. Ou desejado. Ela levantou-se rápido e sem olhar para trás, já lá fora, passou pelo portão. Não podia ajudá-lo, nem sentia-se capaz, e ele já não poderia lhe fazer nenhum mal. Sorriu. Lá fora, uma vida inteira a aguardava. Tudo o que passaram tinha ficado para trás.

segunda-feira, abril 04, 2005

Dialética (*)

"É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste..."

Vinicius de Moraes

(*) Para meu amigo Paulo. Onde andarás?

sábado, abril 02, 2005

Para minha amiga Pe

Minha amiga de tantos anos e tantas conversas recheadas de carolinas... Sentirei saudades, até a próxima visita e desejo que você seja tão feliz quanto tem sido. Temo que, com o passar do tempo, o seu coração apazigue a dor da distância com alguma indiferença. Mas, não podemos lutar contra o invisível.
Mil beijos, da amiga que sentirá muito a sua falta.

domingo, março 27, 2005

Para o Meu Maridão

YOU MAKE ME FEEL BRAND NEW - Simply Red

My love
I'll never find the words, my love
To tell you how I feel, my love
Mere words could not explain
Precious love
You held my life within your hands
Created everything I am
Taught me how to live again

Only you
Cared when I needed a friend
Believed in me through thick and thin
This song is for you
Filled with gratitude and love

God bless you
You make me feel brand new
For God blessed me with you
You make me feel brand new
I sing this song 'cause you
Make me feel brand new

My love
Whenever I was insecure
You built me up and made me sure
You gave my pride back to me
Precious friend
With you I'll always have a friend
You're someone who I can depend
To walk a path that never ends

Without you
My life has no meaning or rhyme
Like notes to a song out of time
How can I repay
You for having faith in me

Pequena Cena do Cotidiano

A estátua moveu-se lentamente, pegou uma rosa no buquê que segurava - uma rosa pequenina e prateada - e ofereceu a senhora que passava.
Esta, porém, não a aceitou e seguiu seu caminho ignorando que estátuas não se moviam e que as rosas não podiam ser prateadas.
Tivesse a estátua me oferecido aquela rosa, eu a teria aceitado.

terça-feira, março 08, 2005

O Carnaval

Tinha conhecido Marcos numa livraria. O destino quis que eles se encontrassem algumas vezes. Havia se interessado por ele imediatamente mas, não quis correr o risco de investir numa pessoa que tinha conhecido assim tão aleatoriamente. Como continuaram se encontrado, ele tomou a iniciativa e convidou-a para sair.
Ela estava cada vez mais feliz e naturalmente, envolvida. Tirou do armário vestidos há muito guardados e tornou a usá-los. Marcos fazia-lhe um bem enorme. Gostava de adimirá-la e dizia-lhe sempre que era linda. Embora ela não se sentisse bonita.
O carnaval se aproximava e Marcos informou-a que tinha uma viagem importante a fazer. Não deu muitos detalhes, apenas disse que era necessário. Ela entendeu o recado: Marcos estava saindo de sua vida tão aleatoriamente como havia entrado. Passaria mais um carnaval sozinha em casa vendo filmes antigos.
No último dia de carnaval, uma amiga a chamou para sair. Conhecia um bloco e queria que fossem juntas. Ela resolveu ir mas não encontrou a amiga com quem tinha combinado e sim uma outra que não via há tempos. Aquela surpresa a fez esquecer por uns momentos a tristeza em que se encontrava em pleno carnaval. Pulou e brincou como se ainda fosse uma criança. E pensou que havia perdido tempo demais esperando o homem certo, o momento certo. Enquanto outros momentos passavam pela sua vida sem que lhes desse a devida importância.
Chegou em casa cansada e resolveu tomar um banho. Adorava tomar banhos longos e bem quentes quando se sentia assim cansada ou triste. Pensou que tinha feito bem em sair, não podia deixar a vida passar porque Marcos havia sumido. Mas não queria pensar nisso, queria apenas pensar no futuro, fazer planos felizes. Embora estivesse sendo bastante difícil adimitir que estava correta: que romances eram impossíveis e que Marcos não existia.
Uma hora depois entrava no quarto para se trocar. Em cima da cabeceira havia um bilhete: Marcos ligou, disse que volta amanhã.
Baixou a cabeça e sorriu: o chão estava coberto de confetes.

sábado, fevereiro 19, 2005

Avisa lá *

Não vou me juntar ao Oludum.
Nada contra, eu até que queria. Simplesmente o assunto não é esse.
Co-incidências a parte, chega o Carnaval e com ele, felizmente, alguns diazinhos, bem poucos, de completa contemplação. Finalmente uma pausa semibreve antes de tudo começar de novo muito mais novo este ano. Não é depois do Carnaval que tudo recomeça? Pois então: aqui estou eu a espera - um novo emprego, de volta aos estudos e a Ioga (ou iôga, como preferir), enfim, tantas coisas para preencher meu tempo. Para me trazer de volta velhos sonhos. Eu vi, no sábado que passou, as crianças da Herdeiros da Vila passarem aqui pertinho. Estava voltando para casa, no meio da rua interditada e tive que parar para ver. Foi lindo, encheu meus olhos de lágrimas... E então? Então que meu coração parece que entrou no ritmo. Nesse ritmo de Carnaval, já sabendo que deve se esbaldar e depois descansar, porque o ano promete. E - oxalá! - cumpre!

* Texto escrito antes do Carnaval

Tempo

Andava a passos lentos. Queria entender algo que o ultrapassava. Os últimos acontecimentos não tinham nada de singular mas precisava disso. Precisava desse
tempo de autofagia. Precisava olhar para dentro de si mesmo e rearrumar a bagunça, costurar os elos. Refazer os planos. Tinha essa vagarosidade em si e não se sentia compreendido. Prefiria, muitas vezes, ficar em casa nos finais de semana. Repassando a vida a limpo. Como se isso fosse possível. Gostava de estar só, se sentia só.
Tinha alguma coisa dentro de si que se machucava na multidão.

terça-feira, janeiro 25, 2005

Amém

"Deus queira que quando houver mau humor, no desencontro, no descompasso, no desconsolo, oxalá, meu pai, que o brilho dos olhos nunca se perca! Que cada cafuné de desculpa tenha sempre o traço surdo da promessa e o abraço mudo da resposta. Que você me ensine sempre a te ensinar o que a gente aprende. Amém!"

Lindíssimo texto do Gui, do Ah, bravo Figaro!

terça-feira, janeiro 18, 2005

Presenças

VII

Pôs-se a esperar na janela que um dia ele voltasse.
Mesmo sabendo que não voltaria.

Fim

segunda-feira, janeiro 17, 2005

Palavras

II

Anoiteceu na palavra.
Escurecia.
A palavra era dia.

Balanço do Final de Semana

Final de semana cheio. No sábado fomos com um amigo e a Carol num passeio cultural pelo centro do Rio: CCBB, Casa França Brasil e Centro Cultural dos Correios. Destaque para esse último pela exposição sobre os cem anos da Revolta da Vacina e pela ótima explanação do estudante de história - Rafael - que nos conduziu. Quem acha que naquela época o povo se revoltou contra a vacina porque era ignorante passa lá e pede uma explicaçãozinha sobre o tema - para ter certeza de como a história é tão mal contada nas escolas. Pequeno porém: fomos ao CCBB e esquecemos de comer bomba de chocolate!
Depois disso fomos ao cinema ver Meu Tio Matou um Cara. Filme leve e muito divertido. Vale a pena.
No domingo fomos ao cinema de novo: Os Incríveis. E beber muito mate porque o calor tá de arrasar!

terça-feira, janeiro 11, 2005

sexta-feira, janeiro 07, 2005

Relíquia

II

Passou pelo quarto de banho. A banheira jazia empoeirada. Os azulejos de cerâmica esmaecidos pelo tempo. Tudo ali carregava um grande peso de existir.
Pensou em que corpos teriam ali se banhado. Alguém teria, um dia, se olhado naquele espelho, cuidando com esmero dos detalhes de alguma vestimenta de festa. Por um momento, sentiu o ambiente habitado por aquelas vidas.
Tomou o corredor em direção a sala.

quinta-feira, janeiro 06, 2005

Que Dia Feliz Este Também Não Terá Sido?*

Os últimos dias têm sido preenchidos de acontecimentos. Um happy hour na Lapa - em que saímos esquecendo de pagar a conta, um detalhe! -, um almoço em Santa Thereza, um almoço lá em casa com as amigas, um outro com um amigo querido e seu amigo gringo que quase não falou nada e nem ouviu porque não nos entendíamos. Algumas compras para a casa para que ela fique com mais cara de casa - embora já tenha porque estamos lá - : travesseiros (embora a gente não consiga dormir com ele na cabeça), saleiro, lençóis.
O que eu espero de 2005? Que ele seja tão repleto quanto estes dias!

* Frase da peça "Dias Felizes" com Fernanda Montenegro e Fernando Torres e que ecoa diversas vezes dentro de mim.