terça-feira, setembro 27, 2005

O Porta Retrato

Segurou o retrato entre as mãos. Mirou a mulher que sorria sem qualquer expressão.
Por um momento pareceu que recordava, que um sentimento qualquer emergia.
Pura ilusão - devolveu o retrato cuidadosamente à mesa e prosseguiu.

O Pesadelo do Avesso

Acordou e por um breve momento sentiu-se imensamente feliz - era um sonho. Acabou, acabou, foi um sonho.
E de repente a realidade caiu sobre sua cabeça como uma bigorna: nem havia sonhado.

A Janela

A chuva riscava a janela. Sem pressa. A tarde ia estendendo sobre o céu um manto. Tudo escurecia.
O vento vinha varrendo as árvores. As folhas pairando como se se desprendessem de um calendário. Era como se o tempo estivesse dizendo: estou passando.

Deixou-se ficar ali na janela observando a tarde cair. Não acendeu as luzes. Não queria mover-se dali e perder o espetáculo mesmo sabendo que parte dele está no observador. Gostava de ver a terra umedecendo até criar as poças. Colou as mãos no vidro e aproximou o rosto até embaçar.

Portas

Levanto-me da cadeira. Os músculos de minhas pernas, em contato com o chão, permitem que seja criada a tensão necessária. Desloco moléculas de ar que, por sua vez, deslocam outras. Consequência da projeção do meu corpo através do espaço. Concreto sou eu. Apóio-me sobre isso da mesma maneira que sobre os meus pés. Uma pedra basal, na qual se sustentam todas as construções disformes que constituem a cidade caótica da minha alma. Minha casa. O lugar íntimo onde pode ser encontrado aquilo que chamo de eu mesmo.

Mas, como concreto? É exatamente a inconcretude que possibilita o movimento das sublimes moléculas de ar e o deslocamento de meu próprio aparato físico pelo espaço que o cerca. Membros interagindo com o solo. Uma molécula de ar que age sobre outra, empurrando-a. Dois objetos exercendo e sofrendo ações mútuas e simultâneas. O limite entre os dois. Aquele que torna possível a elaboração de uma articulação capaz de transformar dois em um só, maior e diferente. Esta linha localizada bem na periferia da realidade, na fronteira do mundo. Ela, que também está em nós, e o além de si que provoca e pelo qual é provocada são a pedra basal de tudo o que é e se move. Constituem o lugar onde se diluem os próprios significados de exercer e sofrer. Onde a nossa linguagem se dissolve em uma solução homogêna, sem movimento, fora do tempo e espaço. Uma pedra tão sublime e frágil quanto a concretude de nossas verdades.

Discussão paliativa. Nada disso importa pra nós mesmos e para o que nós somos.

Meu Amigo Filósofo

Uma novidade: o Paulo, meu amigo das frases e textos incríveis, filósofo não só nas horas livres como nas ocupadas, vai fazer umas participações especiais por aqui. Então é isso: aguardar pelos textos assinados como Paulo Lobo.
Tá bom, Paulo, sou eu que vou postar... é só para as pessoas saberem que o texto não é meu... :)

segunda-feira, setembro 19, 2005

Crônica do Dia

Passa !

Sem Título

"Lá vinha. Da esquina. Que baque ao vê-lo. Figura enorme, esguia. Seus olhos arregalados, a boca escancarada, ofegante. Vinha rápido. Mulato, cabelo grande, magro. Corria com os olhos arregalados, mas não era de medo. Ele estava alerta como um gato. Cada célula do seu corpo respirava desperta e ativa. Olhos esbugalhados de quem sabe tudo o que acontece em volta de si, sem se dar conta disso. E como corria! Cada passada de pernas sua era um salto. Conforme aproximava-se, seus pés descalços ficavam maiores. Conseguia quase ver o encardido das suas solas. Ele ia passar por cima de mim, a pisadas. Tudo o que pude fazer foi desequilibrar o corpo, tentando tirar o máximo de mim do seu caminho. Não consegui nem a metade. Em instantes nos trombamos. E, eu que esperava sentir a marretada de seus calcanhares, recebi as estocadas do joelho e cotovelo. O primeiro na coxa o outro no ombro. Caí com a coxa imóvel, ombro imóvel, tudo imóvel. Minha boca sangrava, não sabia bem porquê. Até que passado um tempinho, pude ver, não sei como, um polícial passar por cima de meu corpo caído. E, foi neste momento que eu percebi que ele não era mais meu. Morri. Fui alvo acidental de um tiro bem intencional. Mas agora é tarde, já foi."

Paulo Lobo

quarta-feira, setembro 14, 2005

domingo, setembro 11, 2005

O Quarto

Queria sorrir mas não podia. Estava trancada num corpo que não respondia aos estímulos. Nem mesmo aos sentimentos. Todos entravam e saiam do quarto preocupados apenas em mudar sua posição para prevenir escaras ou trocar fraldas, arrumar sondas.
Exceto o neto curioso que a beliscava até formar grandes nódoas arrocheadas ou que alguém o repreendesse. Porém, sentia-se extremamente grata por isso. Pois era o único que não desistia de acreditar que ela estava lá.

O Topo

Arfava. Parou curvando-se e apoiando as mãos espalmadas sobre os joelhos. Tudo era cortante naquela tarde. A terra árida sob seus pés... Mesmo o pôr do sol pincelando o céu em tons de vermelho.

quarta-feira, setembro 07, 2005

Quando você me levava para ver os aviões no aeroporto

Senti tuas mãos percorrerem as linhas do meu rosto num gesto triste. Era quase como se não me reconhecesses mais. O tempo desconstruiu as pessoas que fomos. Desfez aqueles que éramos quando nos conhecemos. Teu olhar profundo tenta buscar no meu algo que já não sou. Alguma certeza inerente naquela que eu fui um dia e que te fazia tão próximo. E já não és mais. E nada é mais como era.