Levanto-me da cadeira. Os músculos de minhas pernas, em contato com o chão, permitem que seja criada a tensão necessária. Desloco moléculas de ar que, por sua vez, deslocam outras. Consequência da projeção do meu corpo através do espaço. Concreto sou eu. Apóio-me sobre isso da mesma maneira que sobre os meus pés. Uma pedra basal, na qual se sustentam todas as construções disformes que constituem a cidade caótica da minha alma. Minha casa. O lugar íntimo onde pode ser encontrado aquilo que chamo de eu mesmo.
Mas, como concreto? É exatamente a inconcretude que possibilita o movimento das sublimes moléculas de ar e o deslocamento de meu próprio aparato físico pelo espaço que o cerca. Membros interagindo com o solo. Uma molécula de ar que age sobre outra, empurrando-a. Dois objetos exercendo e sofrendo ações mútuas e simultâneas. O limite entre os dois. Aquele que torna possível a elaboração de uma articulação capaz de transformar dois em um só, maior e diferente. Esta linha localizada bem na periferia da realidade, na fronteira do mundo. Ela, que também está em nós, e o além de si que provoca e pelo qual é provocada são a pedra basal de tudo o que é e se move. Constituem o lugar onde se diluem os próprios significados de exercer e sofrer. Onde a nossa linguagem se dissolve em uma solução homogêna, sem movimento, fora do tempo e espaço. Uma pedra tão sublime e frágil quanto a concretude de nossas verdades.
Discussão paliativa. Nada disso importa pra nós mesmos e para o que nós somos.