II
É cedo ainda. O sol vem me chamar na cama ainda bem cedo nesse sábado. Abro os olhos como se estivesse desperto desde o dia anterior. Olho pela janela. Observo o movimento da rua sábado de manhã. Os sons. Crianças no colo dos pais, embrulho de pão, frango assado da padaria. Faz fila na padaria. Mas o sol ofusca meus olhos que dormiram pouco fazendo-os arderem. Fecho as cortinas.
Fica tudo escuro aqui dentro. Mais escuro do que já vem sendo. Passo os olhos de relance pelo telefone. Nem espero mais que toque, ruja, lata ou emita qualquer som. Tenho certeza de que emudecerá. Hoje, no fim da tarde, quando ela ligar, vou fazer as pazes com o telefone. Mas ainda é cedo e eu já não espero.
Sento-me no sofá, tento ler. Florentino Ariza ainda espera Fermina Daza tantos anos depois. Esperar, esperança, espera. Fecho o livro. Já não quero saber dessas tolices.
Olho o pão duro sobre o fogão. Resolvo sair. Calço meus chinelos e, só então, percebo como meus pés me doem. Passei o dia todo de sapatos calçados aguardando alguém que não viria, que não ligaria. Sinto raiva de mim. Por que ainda acreditar? Pego minhas chaves e saio. Lá fora tudo está alegre. Algumas poucas crianças andam de bicicleta na minha rua. Ando até a esquina, atravesso uma rua perpendicular à minha. Entro na padaria, olho para a moça do caixa e de repente não sei o que dizer. Volto para o final da fila. Dois pães franceses, por favor. Dou o dinheiro, recebo meu troco. Pego o embrulho e saio, ainda disperso.
De volta à casa, não sei o que fazer com um dia inteiro pela frente não planejado. Um dia inteiro para imaginar onde estaria e não estou. Até o sol vai desistindo lá fora e o frio vai tomando conta da casa. Olho a pia da cozinha: sequer tenho uma louça por lavar que ocupe meus pensamentos. Ou, pelo menos, minhas mãos. Maria deixou tudo com cheiro de limpo e um bilhete: "tem carne na geladeira". Preparo um café forte e sento-me à mesa. Ficarei aqui esperando o dia a escoar?
Passo manteiga no pão ainda quente. Tudo demora. O dia demora. A vida demora como se estivesse suspensa. Fico angustiado. Como se saber que vou viver as próximas horas nessa espera negada fosse um anúncio de morte.
Tomo meu café sem alegria. Resolvo voltar ao livro e leio até o meio da tarde quando a fome e a lembrança da carne na geladeira me tiram a concentração. Olho o relógio e felicito-me: passaram-se horas. Esquento a comida e me sinto triste, solitário nesse apartamento. Sequer convivo com Maria, sei de seus filhos, exatamente onde mora, o que faz quando não está aqui. Ela chega quando estou quase saindo e vai embora antes que eu retorne. Sequer converso com Maria. Sequer sei de suas necessidades. Esse pensamento estranho me perturba.
Sento-me à mesa e almoço só, como em todas as tardes de sábado. Lavo a louça bem comportado, enxugo os pratos. Então o telefone toca. Fico paralisado por alguns segundos. Depois enxugo as mãos no pano de prato colorido. Sento-me no escritório: "Alô?". Ela me sorri do outro lado. Desculpa-se brevemente por não ter ligado no dia anterior como combinado, diz simplesmente: "não deu". Como se pudesse amenizar toda a minha espera. Sorrio de volta e passo as mãos pelos cabelos, sorrindo, bobo. Ela parece ter tanto a me dizer...
quinta-feira, junho 22, 2006
domingo, junho 18, 2006
Fred - A Sexta Estrela de Teófilo Otoni
Fui assistir ao jogo na casa de uns amigos mineiros. Um deles é de Teófilo Otoni, quase Bahia, o que lhe confere um sotaque um tanto quanto... particular. Eis que parte da família está lá e foi ótimo conhecê-los. O primeiro tempo foi aquilo: deu pro gasto. Como o narrador gostou de repetir no jogo anterior "o importante é ganhar". Em se tratando de jogo de copa, não vamos discutir.
Então, no segundo tempo, mais precisamente faltando uns 5 minutos pra acabar o jogo eis que o técnico faz uma substituição e entra o jogador Fred. O pessoal de pronto subiu no sofá e começou a pular: "Fredão! Fredão! Fredão!". Fiquei refletindo alguns instantes sobre minha ignorância futebolística num momento tão importante: "Quem diabos é Fredão?!". Ora, Fredão é a sexta estrela de Teófilo Otoni, vejam vocês, embora tenha sido dito que ele gosta de mentir que é de BH. Fredão entrou em campo e foi logo marcando. Depois perguntado pela jornalista se ele tinha estrela, disfarçou, foi humilde, disse que a bola foi parar nos pés dele, e foi mesmo... Mas Téofilo Otoni sabe que Fredão tem muita estrela...
Então, no segundo tempo, mais precisamente faltando uns 5 minutos pra acabar o jogo eis que o técnico faz uma substituição e entra o jogador Fred. O pessoal de pronto subiu no sofá e começou a pular: "Fredão! Fredão! Fredão!". Fiquei refletindo alguns instantes sobre minha ignorância futebolística num momento tão importante: "Quem diabos é Fredão?!". Ora, Fredão é a sexta estrela de Teófilo Otoni, vejam vocês, embora tenha sido dito que ele gosta de mentir que é de BH. Fredão entrou em campo e foi logo marcando. Depois perguntado pela jornalista se ele tinha estrela, disfarçou, foi humilde, disse que a bola foi parar nos pés dele, e foi mesmo... Mas Téofilo Otoni sabe que Fredão tem muita estrela...
É Domingo É Domingo É Domingo
Então...
Cecília começa sua história e me conta o que tem feito
no Rio de Janeiro.
Adélia adora o Rio, me diz:
"Acho o Rio de Janeiro uma beleza".
Sim, eu sei. Digo.
Também estes versos me guardam.
Ou guardo eu a eles?
Marcelo me conta coisas.
Várias novidades.
Agora é uma tarde de domingo e ainda tomamos café na mesa.
Café forte e pouco açúcar.
A casa está cheia.
Mas ali na cozinha
somos só nós.
Cecília começa sua história e me conta o que tem feito
no Rio de Janeiro.
Adélia adora o Rio, me diz:
"Acho o Rio de Janeiro uma beleza".
Sim, eu sei. Digo.
Também estes versos me guardam.
Ou guardo eu a eles?
Marcelo me conta coisas.
Várias novidades.
Agora é uma tarde de domingo e ainda tomamos café na mesa.
Café forte e pouco açúcar.
A casa está cheia.
Mas ali na cozinha
somos só nós.
segunda-feira, junho 12, 2006
Procurando encontrar é que perco
Que fazes destas palavras?
Apenas invólucros de teus pensamentos.
Abre, despetala, desembrulha.
Desfaz, aos poucos,
porque tudo cansa,
esse labirinto insano que criaste.
Estou aqui
estou te ouvindo.
Mas já não sei por quanto tempo.
Apenas invólucros de teus pensamentos.
Abre, despetala, desembrulha.
Desfaz, aos poucos,
porque tudo cansa,
esse labirinto insano que criaste.
Estou aqui
estou te ouvindo.
Mas já não sei por quanto tempo.
sexta-feira, junho 09, 2006
A Palavra É Luz
O homem abre a boca
pouca
e solta palavras como um fio. Iluminado.
As palavras brilham.
pouca
e solta palavras como um fio. Iluminado.
As palavras brilham.
quinta-feira, junho 08, 2006
"Agitos" da Semana
Essa semana começou super bem com a palestra da Adélia Prado na Letras & Expressões em Ipanema. Fiquei sabendo em cima da hora, corri pra lá e quase não consegui entrar. Mas entrei. Entrei e fiquei segurando as lágrimas nos olhos enquanto Adélia discorria, em seu mineirismo firme, sobre a paixão pela palavra. Cheguei já na hora das perguntas. Mas não me perguntem sobre o que ela disse. Fiquei tão emocionada que nem sei... Só guardei o som da sua voz recitando simples "O Casamento": "Coisas prateadas espocam: somos noivo e noiva".
Terça foi o dia de resistir ao dia em si e ir assistir Los Hermanos no Circo. Foi ótimo, apesar do cansaço que agora eu estou sentindo. :) Show animado como sempre e o público cantando do início ao fim. Muito bonito. Eu e Pe adoramos!
E sexta tem Movimento inVerso! Do meu amigo Alexis Sauer. Essa semana é sobre Poesia Erótica. Na rua Vinícius de Moraes, 190 apto 3 em Ipanema. A entrada é 5 reais e no final todo mundo pode dar sua canjinha... :) Parece ótimo!
Terça foi o dia de resistir ao dia em si e ir assistir Los Hermanos no Circo. Foi ótimo, apesar do cansaço que agora eu estou sentindo. :) Show animado como sempre e o público cantando do início ao fim. Muito bonito. Eu e Pe adoramos!
E sexta tem Movimento inVerso! Do meu amigo Alexis Sauer. Essa semana é sobre Poesia Erótica. Na rua Vinícius de Moraes, 190 apto 3 em Ipanema. A entrada é 5 reais e no final todo mundo pode dar sua canjinha... :) Parece ótimo!
domingo, junho 04, 2006
A Palavra nos Enlaça
Ontem, sábado à noite, fui ver o pessoal da Escola Lucinda de Poesia Viva se apresentar na Renovar em Ipanema. O Recital foi sobre Mario Quintana - o poeta passarinho... E além das lindas palavras ditas por lá foi bom também reencontrar alguns colegas da turma do Workshop: Natália - linda, linda de cabelinhos curtos, Nelson, Leila, Henrique (ei! será que o Bagunçando não volta mesmo? hunf...) e Alexis que anda por aí organizando altos eventos. Aliás, assim que ele me mandar a divulgação oficial da coisa eu publico aqui.
Por enquanto, fica o poema abaixo na minha memória com a voz firme da Claudia:
De gramática e de linguagem
E havia uma gramática que dizia assim:
“Substantivo (concreto) é tudo quanto indica
Pessoa, animal ou cousa: João, sabiá, caneta”.
Eu gosto é das cousas. As cousas, sim!...
As pessoas atrapalham. Estão em toda parte. Multiplicam-se em excesso.
As cousas são quietas. Bastam-se. Não se metem com ninguém.
Uma pedra. Um armário. Um ovo. (Ovo, nem sempre,
Ovo pode estar choco: é inquietante...)
As cousas vivem metidas com as suas cousas.
E não exigem nada.
Apenas que não as tirem do lugar onde estão.
E João pode neste mesmo instante vir bater à nossa porta.
Para quê? não importa: João vem!
E há de estar triste ou alegre, reticente ou falastrão.
Amigo ou adverso... João só será definitivo
Quando esticar a canela. Morre, João...
Mas o bom, mesmo, são os adjetivos,
Os puros adjetivos isentos de qualquer objeto.
Verde. Macio. Áspero. Rente. Escuro. Luminoso.
Sonoro. Lento. Eu sonho
Com uma linguagem composta unicamente de adjetivos
Como decerto é a linguagem das plantas e dos animais.
Ainda mais:
Eu sonho com um poema
Cujas palavras sumarentas escorram
Como a polpa de um fruto maduro em tua boca,
Um poema que te mate de amor
Antes mesmo que tu saibas o misterioso sentido:
Basta provares o seu gosto...
Mario Quintana
Por enquanto, fica o poema abaixo na minha memória com a voz firme da Claudia:
De gramática e de linguagem
E havia uma gramática que dizia assim:
“Substantivo (concreto) é tudo quanto indica
Pessoa, animal ou cousa: João, sabiá, caneta”.
Eu gosto é das cousas. As cousas, sim!...
As pessoas atrapalham. Estão em toda parte. Multiplicam-se em excesso.
As cousas são quietas. Bastam-se. Não se metem com ninguém.
Uma pedra. Um armário. Um ovo. (Ovo, nem sempre,
Ovo pode estar choco: é inquietante...)
As cousas vivem metidas com as suas cousas.
E não exigem nada.
Apenas que não as tirem do lugar onde estão.
E João pode neste mesmo instante vir bater à nossa porta.
Para quê? não importa: João vem!
E há de estar triste ou alegre, reticente ou falastrão.
Amigo ou adverso... João só será definitivo
Quando esticar a canela. Morre, João...
Mas o bom, mesmo, são os adjetivos,
Os puros adjetivos isentos de qualquer objeto.
Verde. Macio. Áspero. Rente. Escuro. Luminoso.
Sonoro. Lento. Eu sonho
Com uma linguagem composta unicamente de adjetivos
Como decerto é a linguagem das plantas e dos animais.
Ainda mais:
Eu sonho com um poema
Cujas palavras sumarentas escorram
Como a polpa de um fruto maduro em tua boca,
Um poema que te mate de amor
Antes mesmo que tu saibas o misterioso sentido:
Basta provares o seu gosto...
Mario Quintana
quarta-feira, maio 31, 2006
À Espera
Disse que me ligaria às nove. Sentei-me à mesa do escritório e esperei. Fiquei por minutos observando os algarismos efêmeros do relógio digitalizando a minha espera. Faltavam quinze minutos para às nove. Era cedo ainda. Mas eu inteiro me concentrava na espera. Esperar era tudo que eu poderia fazer...
À medida que a hora combinada se aproximava, eu ficava mais nervoso. A tensão percorria todos os músculos da minha face e pesava sobre meus ombros. Depois pensei: ela não ligará às nove em ponto. Vi os dois últimos algarismos se transformarem então e a hora combinada chegou. Fixei os olhos no telefone imóvel. A tensão chegou a um nível máximo e depois de alguns segundos se dissipou. Sim, ela não ligaria exatamente às nove, pensei.
Estaria ela, neste momento, contabilizando os minutos sensatos que deveria esperar para que não fosse extremamente pontual? Ao pensar nisso concluí que telefonaria às nove e quinze. E então pus-me a esperar. Esperar era tudo que eu podia.
A nova hora chegou. E de novo mirei o telefone. Ele continuou impassível ao meu desespero. Mudo. Sombrio. Misterioso. Do outro lado da linha, que linha?, havia alguém, ou não haveria?!
Então me distraí com os livros sobre a mesa. Abri um a esmo, li algumas linhas. Linhas sublinhadas tortuosamente a lápis. Reconheci minha grafia de muito tempo. Abri outro e mais outro. As linhas se repetiam e já nos livros mais novos não havia. Ainda não li este, pensei. E a curiosidade de ler a última linha me invadiu novamente como quando eu era criança. Não lerei, resisti. Olhei de novo o relógio. Controlava-me o relógio. O tempo me mirava. Havia transcorrido então trinta preciosos minutos de espera. Esperar... Eram nove e quarenta e cinco da noite.
Abri um livro de poemas. Sempre me prometi uns estudos de estilo que nunca realizei. Preciso organizá-los pensei. Posso fazer isso enquanto espero. Então levantei-me, com algum custo então, porque o peso da espera se acumulou em minhas pernas, e arrematei alguns livros na estante. Alguns tinham notas de rodapé, outros dobraduras e outros ainda, clipses. Quantas vezes comecei isso antes? Não importa. Começar. Apenas começar. Organizei os livros, reli meus poemas preferidos. Invejei as frases que jamais comporia.
Olhei de novo o relógio. Mais meia hora. Eram dez e quinze da noite. Um pouco mais, eu pensei. Esperar era tudo. Talvez tenha se atrasado, ocorrido algum imprevisto. Imprevisível, pensei. Este telefone está prestes a tocar, sei disso há mais de uma hora e mesmo assim, quando ele tocar, levarei um susto. Agora então não conseguia relaxar. Os algarismos sonolentos do relógio zombavam de mim, de minha espera. Moviam-se com lentidão. Então fixei meus olhos neles. Naquele arrastar incansável das horas. E fiquei assim por muito tempo. Até que despertei de repente daquele entre-sono em que me encontrava e passava de meia noite. A rua silenciava lá fora o fim de mais um dia. Um longo dia de espera. Alguns cachorros começavam a latir solidários na madrugada. Passava de meia noite.
Foi então que eu compreendi: ela não ligaria.
À medida que a hora combinada se aproximava, eu ficava mais nervoso. A tensão percorria todos os músculos da minha face e pesava sobre meus ombros. Depois pensei: ela não ligará às nove em ponto. Vi os dois últimos algarismos se transformarem então e a hora combinada chegou. Fixei os olhos no telefone imóvel. A tensão chegou a um nível máximo e depois de alguns segundos se dissipou. Sim, ela não ligaria exatamente às nove, pensei.
Estaria ela, neste momento, contabilizando os minutos sensatos que deveria esperar para que não fosse extremamente pontual? Ao pensar nisso concluí que telefonaria às nove e quinze. E então pus-me a esperar. Esperar era tudo que eu podia.
A nova hora chegou. E de novo mirei o telefone. Ele continuou impassível ao meu desespero. Mudo. Sombrio. Misterioso. Do outro lado da linha, que linha?, havia alguém, ou não haveria?!
Então me distraí com os livros sobre a mesa. Abri um a esmo, li algumas linhas. Linhas sublinhadas tortuosamente a lápis. Reconheci minha grafia de muito tempo. Abri outro e mais outro. As linhas se repetiam e já nos livros mais novos não havia. Ainda não li este, pensei. E a curiosidade de ler a última linha me invadiu novamente como quando eu era criança. Não lerei, resisti. Olhei de novo o relógio. Controlava-me o relógio. O tempo me mirava. Havia transcorrido então trinta preciosos minutos de espera. Esperar... Eram nove e quarenta e cinco da noite.
Abri um livro de poemas. Sempre me prometi uns estudos de estilo que nunca realizei. Preciso organizá-los pensei. Posso fazer isso enquanto espero. Então levantei-me, com algum custo então, porque o peso da espera se acumulou em minhas pernas, e arrematei alguns livros na estante. Alguns tinham notas de rodapé, outros dobraduras e outros ainda, clipses. Quantas vezes comecei isso antes? Não importa. Começar. Apenas começar. Organizei os livros, reli meus poemas preferidos. Invejei as frases que jamais comporia.
Olhei de novo o relógio. Mais meia hora. Eram dez e quinze da noite. Um pouco mais, eu pensei. Esperar era tudo. Talvez tenha se atrasado, ocorrido algum imprevisto. Imprevisível, pensei. Este telefone está prestes a tocar, sei disso há mais de uma hora e mesmo assim, quando ele tocar, levarei um susto. Agora então não conseguia relaxar. Os algarismos sonolentos do relógio zombavam de mim, de minha espera. Moviam-se com lentidão. Então fixei meus olhos neles. Naquele arrastar incansável das horas. E fiquei assim por muito tempo. Até que despertei de repente daquele entre-sono em que me encontrava e passava de meia noite. A rua silenciava lá fora o fim de mais um dia. Um longo dia de espera. Alguns cachorros começavam a latir solidários na madrugada. Passava de meia noite.
Foi então que eu compreendi: ela não ligaria.
quarta-feira, maio 24, 2006
Uma Manhã Gelada de Julho
Você vinha só sem subterfúgios. Vinha com aquele sorriso no canto dos olhos. Como sempre viera, da maneira que eu o esperava.
E assim, de te olhar e te sentir aproximando-se eu sorri. Sorri porque soube com o meu coração que era o tempo. É agora, pensei. Pensei sem palavras daquela maneira que eu tento explicar mas você ri e eu me calo. Mas foi assim embora você não entenda. É agora, pensei assim sem as palavras. E então você veio sorrindo - era uma manhã gelada de julho mas o sol brilhava tímido. Pouca coisa nos aquecia. Mas era amor aquilo.
E assim, de te olhar e te sentir aproximando-se eu sorri. Sorri porque soube com o meu coração que era o tempo. É agora, pensei. Pensei sem palavras daquela maneira que eu tento explicar mas você ri e eu me calo. Mas foi assim embora você não entenda. É agora, pensei assim sem as palavras. E então você veio sorrindo - era uma manhã gelada de julho mas o sol brilhava tímido. Pouca coisa nos aquecia. Mas era amor aquilo.
sábado, maio 06, 2006
Da Delicadeza
Oferece-me esta rosa que seguras. Dá-me algo que te faça falta mas que o contentamento da generosidade recompense. Aprende a ser menos por si e passa a ser mais pelos outros. Também. Às vezes.
Não dói amar até que nos doa o próprio peito. Porque amar é sempre essa dor delicada. Desejada. Deliciosa.
Aprende a ler nos momentos as alegrias desse cotidiano efêmero em que vives. Transforma. Renova.
Aproveita...
Entrega-te.
Não dói amar até que nos doa o próprio peito. Porque amar é sempre essa dor delicada. Desejada. Deliciosa.
Aprende a ler nos momentos as alegrias desse cotidiano efêmero em que vives. Transforma. Renova.
Aproveita...
Entrega-te.
sexta-feira, abril 28, 2006
Maratona Quintana
terça-feira, abril 25, 2006
Quando não há mais
Ele enxugou suas lágrimas e disse que ficariam assim unidos para sempre. Mas algo se partira - irreversível. Olhou nos olhos dele e soube que as promessas eram verdadeiras. Mas ainda assim nada foi salvo.
Era tarde. Queria que de tudo aquilo restasse o consolo de ser: livre.
Era tarde. Queria que de tudo aquilo restasse o consolo de ser: livre.
Eram Lindos os Girassóis *
Que poderia mais dizer?! Apenas que eram lindos os girassóis...
* Para Carla, cujas palavras iluminam...
* Para Carla, cujas palavras iluminam...
terça-feira, abril 18, 2006
Um Dia Chuvoso de Junho
Chovia. Choveu o dia todo. Às vezes, cabelos desgrenhados e arrastando os chinelos pela casa, olhava pela janela. A chuva triste ia escorrendo sem tréguas. Queria arrumar a casa, telefonar para Ana, fazer uma comida gostosa mas o ânimo ia escorrendo-lhe sem pressa. Deitou-se na cama, abriu o livro de capa azul e retomou a leitura. Lá fora o som da chuva incessante. As janelas fechadas e aquele ar gelado de junho. Choveu o dia todo.
quinta-feira, abril 06, 2006
Luísa e Seus Olhos de Diamante
Fim
Luísa esbofeteia algumas palavras em meu rosto. Sofro em silêncio sua indelicadeza.
Luísa exaspera-se comigo porque vê em mim reticências de si mesma.
Luísa esbofeteia algumas palavras em meu rosto. Sofro em silêncio sua indelicadeza.
Luísa exaspera-se comigo porque vê em mim reticências de si mesma.
sábado, março 18, 2006
Luísa e Seus Olhos de Diamante
III
Levantou-se, percorreu os poucos metros do aposento reconhecendo aquele lugar. Súbito me envergonhei pela desordem habitual. Luísa já não era habitual. Já não reconhecia ali, em mim, nenhum traço de um passado seu, de uma vida que ela deixou para trás tantos anos antes.
Fiquei perplexa. Eu mesma já não podia reconhecer Luísa. Seu rosto duro e sombrio.
A única coisa que me parecia estranhamente familiar eram seus olhos de diamante.
Levantou-se, percorreu os poucos metros do aposento reconhecendo aquele lugar. Súbito me envergonhei pela desordem habitual. Luísa já não era habitual. Já não reconhecia ali, em mim, nenhum traço de um passado seu, de uma vida que ela deixou para trás tantos anos antes.
Fiquei perplexa. Eu mesma já não podia reconhecer Luísa. Seu rosto duro e sombrio.
A única coisa que me parecia estranhamente familiar eram seus olhos de diamante.
segunda-feira, março 13, 2006
Cartas a Pedro
Soube que os dias andam frios por aí. Aqui faz o calor de sempre mas as nuvens de março amenizam o clima certas tardes.
Ando a escrever-te coisas sem sentido, meu amigo, e peço que me perdoes. Mas quanto mais falo-te sobre nada mais a sensação de que estou a dizer-te tudo quanto é imprescindível me invade. Porque nessas palavras está tudo quanto quero dizer-te.
Bem sabes que sinto falta de teus humores. E mesmo de teu desânimo. Porque és sobretudo humano. Talvez demasiado. E todos por aqui parecem sempre tão ocupados que não posso compreender. As conversas são sempre as mesmas e não posso encenar essa trama cotidiana. Começam a estranhar-me no escritório porque saio sempre só. Prefiro assim. Alguns dias sequer faço minha refeição. Apenas ando pela cidade observando as árvores, o vento escasso que ainda corre nesses dias quentes de verão. E penso que preciso disso. Preciso desses passeios para constatar que tudo está como antes. Ou, pelo menos, para começar a me acostumar com o que há de novo.
Fico por aqui, caro amigo. Espero que esta carta venha a encontrar-te com saúde.
A.
Ando a escrever-te coisas sem sentido, meu amigo, e peço que me perdoes. Mas quanto mais falo-te sobre nada mais a sensação de que estou a dizer-te tudo quanto é imprescindível me invade. Porque nessas palavras está tudo quanto quero dizer-te.
Bem sabes que sinto falta de teus humores. E mesmo de teu desânimo. Porque és sobretudo humano. Talvez demasiado. E todos por aqui parecem sempre tão ocupados que não posso compreender. As conversas são sempre as mesmas e não posso encenar essa trama cotidiana. Começam a estranhar-me no escritório porque saio sempre só. Prefiro assim. Alguns dias sequer faço minha refeição. Apenas ando pela cidade observando as árvores, o vento escasso que ainda corre nesses dias quentes de verão. E penso que preciso disso. Preciso desses passeios para constatar que tudo está como antes. Ou, pelo menos, para começar a me acostumar com o que há de novo.
Fico por aqui, caro amigo. Espero que esta carta venha a encontrar-te com saúde.
A.
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